Condenados a viver até morrer

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Faz algumas semanas que o tema morte vem me visitar e ronda meus pensamentos. Mas antes de achar soturno ou mesmo se preocupar com tendências sombrias, deixe te tranquilizar: estou vivinho; e gosto muito de viver. Esse tema presente não é literal mas simbólico, uma sensação que habita nosso interior psíquico, a tal pulsão inconsciente de morte que Freud contrapôs à libido.

E, nos últimos dias — ou semanas — tenho visitado, internamente, aquilo que em mim precisa morrer para dar espaço a algo novo. Pensamentos, padrões, hábitos antigos… São esses os traços inconscientes que reconhecemos intuitivamente através do ciclo vivo da vida: para que algo floresça de verdade, algo precisa, inevitavelmente, transformar-se, deixar de ser para outra coisa vir a ser.

Esse tema veio à tona no workshop “Tem que morrer pra germinar”, conduzido pela terapeuta Gabriela Christovam Borges. Foi uma sincronia perfeita, já que me convidou a participar na semana passada. Em algum momento, dentro de vivências e meditações, escrevi uma frase que permanece viva (desculpe o trocadilho) dentro de mim:

“A morte em mim tem que ceder.”

Anotei também muitas imagens: dores que carregamos em silêncio, medos que nos encolhem, inseguranças que nos tornam pequenos. Padrões que se repetem e que se recusam a ceder. A proposta do workshop era: acessá-los sensorialmente, trazê-los à consciência, deixar que se movam no corpo — e que possam, aos poucos, morrer; para renascer deixar germinar algo novo.

Para mim, o que ficou mais atuante nesta frase e neste trabalho é justamente as coisas que paradoxalmente insistem em não morrer e ao mesmo tempo nos afastam da vida. “A morte em mim tem que ceder” é um lembrete que me convida a olhar para tudo o que em mim me afasta do viver. Por exemplo, minhas fantasias e desejos de ser quem eu não sou, de viver uma vida que não é a minha.

Hoje, essas “vidas não vividas” são justamente as que resistem a cair. E precisam, para que eu possa ser mais consciente, mais inteiro e presente na minha própria vida. Essas fantasias preenchem o vazio, mas também nos impedem de estar no núcleo da vida, com sua beleza, dor, delícias e imperfeições.

“Estamos condenados a viver até a morte”, escrevi um dia, há dez anos atrás, anotado da boca de Marcelo Sando em uma de suas palestras. Isso não é um fado derrotista — é um chamado. A vida só tem dignidade se vivida, até o fim. Mesmo assim há sempre algo que se agarra à sombra, que se recusa a partir. Essa parte pretende me afastar da presença pelo autoengano: distrações, devaneios, dissociações. Me chama, me dissipa, me desconecta.

Tentei atravessar esse final de semana num estado de contemplação dessas sensações e partes interiores (muitas vezes melancólico pra desespero da minha esposa). Tentar sentir o corpo resistir, observar os músculos tensos, o ritmo suspenso. E me perguntei: se esse “morrer” pudesse se expressar no corpo — seria um movimento de colapso? Uma dança de Butô emocional? Uma remexer de espasmos nervosos? Uma pausa de movimentos? Como isso tudo se expressa no dia-a-dia?

Então lembrei de algo que já disse aqui, nas minhas páginas, e sempre releio em Joan Garriga: o antídoto é simples e profundo. Dizer SIM. Sim à vida. Sim ao corpo. Sim à realidade em sua totalidade: a beleza, a dor, o desafio, a delícia. Dizer sim é permitir que o “não” — essa resistência que impede o morrer para germinar — possa, lentamente, dissolver-se.

Dizemos não tantas vezes sem notar. Mas precisamos reforçar o sim, a cada instante, com corpo e alma; um compromisso com o pulsar da vida.

Sim à vida. Sim ao meu corpo. Sim a realidade como ela simplesmente é. Sim.

E você? O que em você ainda resiste? Qual fantasia antiga, qual recusa está em cena, precisando partir e permitir que algo novo germine e ocupe esse espaço?

Se esse texto ressoou com você de algum modo — um calafrio, uma dúvida, um afeto —, te convido a me escrever. Estou por aqui, com escuta sensível, coração aberto, para caminhar junto nessa travessia.

E, na dúvida, diga sim.

Se este texto tocou em algo, você pode escrever para mim.

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